Entardeceu chuvoso, ventoso, quente, húmido, pegajoso. Ao longe um sussurro de vozes, um cair de água num objecto de metal, cortante o sentimento de já não pensar em nada.
Esqueço-me continuamente do caminho entre a cama e a casa de banho e a gaveta onde escondo os cigarros muda de sítio a cada dois dias, ela ou eu. Não se pode fumar aqui onde estou e tratam-me por querido. Vá lá querido, vamos fazer a higiene querido, vamos almoçar querido.
Arre, apre! Como detesto que me chamem meu querido se não me querem. Que mania a desta gente, infantilizar os velhos, como se não bastassem os espelhos que nos devolvem um ser que não reconhecemos, vêm também apelidar-nos daquilo que não somos.
A verdade é que tenho acordado cada dia mais bem-disposto. Aquela dor na anca direita passou-me por completo e o incómodo parafuso da prótese da perna esquerda, usei-o para fixar a fechadura do quarto e impedir que me abram descaradamente a respectiva porta. O meu coração bate com mais força e hoje à noite dou uma escapadela e vou beber um copo ao bar azul e branco ali da esquina.
Inevitável! Após deitar no lixo a parafernália de comprimidos que me obrigavam a engolir a cada dez segundos, fui convidado a sair do lar.
Aceitei de bom grado e de caminho aposentei-me, numa cerimónia um pouco tonta em que me ofereceram um relógio de ouro e ninguém soltou uma lágrima sequer, cheios de pressa para contratar outro a ganhar menos do que eu.
O cabelo cresce-me dia a dia, os músculos ganham tonicidade, estou mais alto, bem parecido e a hipoteca da casa está cada vez menos elevada.
Tirei o apêndice, que como o nome indica, está a mais, de resto não tenho mazelas que me incomodem. Direi até que estes quarenta anos de trabalho voaram, mau grado o cansaço de tantos dias, a incerteza e o desespero.
Enfrento agora a angústia de andar às aranhas para encontrar trabalho pois terminei o curso e parece-me que foi amanhã.
Sou bonito! Tenho os olhos arredondados e grandes, os ossos da face perfeitos, cresci mais dez centímetros e na faculdade sou popular entre as raparigas. Tenho a liberdade de cometer loucuras, comprometer-me com cada uma delas ao mesmo tempo e ser sincero quando afirmo que as amo. Descomprometidamente sou feliz e meto-me nos copos todas as sextas-feiras à noite. Penso que serei um bom estudante.
O tempo das amizades e dos verões eternos deu-me outra vida e o meu cabelo tem agora a cor das espigas de milho maduras. Discuto a existência de Deus, a inevitabilidade da morte, a essência do amor, a coragem e a amizade. A lealdade é um valor.
Oiço música em altos berros, penduro-me nos eléctricos que atravessam a cidade, mesmo que tenha lugar à frente vou atrás, mesmo que chova não uso chapéu, muito menos botas. Os sapatos de ténis são a minha apaixonada forma de estar nos trilhos.
O professor de língua portuguesa afirma que eu escrevo bem, que prometo, que me afinque e serei alguém e eu descubro que o ato de escrever revoltou-me inteiro como o mais belo acto.
O bibe aos quadradinhos vai-me a matar e estou apaixonado pela menina que se senta ao pé de mim no refeitório. Tem um panamá igual ao meu e quando estamos no cavalete entre pincéis e pássaros, ela oferece-me uma super gorila e eu não lhe ofereço nada.
Dobro o riso, deixo cair a chucha, bato palmas e adoro estes rostos que se debruçam sobre mim e dizem, meu querido e é verdade. Descubro todas as coisas pela primeira vez, conquisto cada palmo como se fosse de terra.
Tornei-me barco, navego em água morna, reconheço a voz da minha mãe e o toque da mão do meu pai quando pousa na sua barriga. Cantam-me uma canção suave e eu sou peixe, o aquário é cada vez maior e eu microscópico.
O tempo deles é imenso, a pressa uma linguagem que não entendem. Alongam-se em cumplicidade amorosa, oscilam as pontes, altera-se o curso dos rios, modifica-se a estrutura das rochas e num grito simultâneo de prazer eu desapareço num orgasmo feliz.
No que tenho de palpável e humano, manifestação, ocultação.
A causalidade perfeita.
. uma inspiração . de . manuela baPtista .
. fotografia de Fernando Pedrosa .

24 . Intemporalidades .:
"O tempo das amizades e dos verões eternos deu-me outra vida e o meu cabelo tem agora a cor das espigas de milho maduras. Discuto a existência de Deus, a inevitabilidade da morte, a essência do amor, a coragem e a amizade. A lealdade é um valor."
El tiempo de las amistades, los valores eternos, el valor de la lealtad...virtudes difíciles de encontrar, pero, amiga Manuela, como dicen en Galicia: "Haberlas haylas", y yo las he encontrado en el autor de este blog, en much@s de l@s comentaristas...grandeza la que se encuentra en estas líneas, entre l@s seguidores/as del blog...por ello, gracias Manuela, gracias Paulo, y gracias a tod@s l@s demás que aquí entran.
Un fuerte abrazo a todo@s.
Grande Paulo,
Um tributo precioso, prestado por alguém que já nos acostumou a uma qualidade literária irrepreensível.
Um grande abraço para a manuela.
Outro grande abraço para ti.
Carlos
PAULO, FERNANDO E MANUELA OU VICE-VERSA
Neste quadro invertido a eternidade que se fixa no que se escreve:
Posso ir por aqui ou por ali ... assim a palavra valesse como a ilusória realidade ...
... que vale mesmo porque fica!
Abraços e beijinhos
Jaime Latino Ferreira
Estoril, 27 de Outubro de 2011
Paulo...
o "regresso ao nada"...ou o ler de baixo para cima...
Li, me comovi..percorri todas as etapas desse crecimento, nas suas alegrias, e ...dores...
Mas...se chamo de "querido" é porque "quero"...mesmo.
Sempre o nosso Paulo...mestre da escrita...que nos comove e nos leva consigo nas palavras e nos sentires.
Um beijo para ti, meu querido...um beijo ..."causalidade perfeita."!
"Haberlas haylas"
é isso mesmo Enriche
e lindas as suas palavras,
lindas como as suas pinceladas de talento!
un abrazo fuerte
"Na minha próxima vida, quero viver de trás para frente."
Woody Allen
ao Paulo
que me desafiou com estas palavras, a que acrescentei apenas uma linha causal
ao Carlos, um amigo!
ao Jaime, que fixa o que se escreve
ao Fernando, que na finitude de uma casa, lhe descobre a alma numa pintura de vida
um grande abraço!
manuela
Quando volto à blogosfera o teu blog é um dos muitos de paragem obrigatória. Já aqui disse uma vez que a tua prosa chega a cativar-me por vezes mais do que a própria poesia. E eis senão quando leio esta pequena bebida de alma em qualidade literária e interesse em cada palavra. Porque não basta escrever. Há que matizar com o humano a pintura da alma. Mesmo na fealdade, no vazio e nos desencantos da vida. Mesmo nisto.
Um abraço. Sempre.
Um percurso de vida feito ao contrário, com muita originalidade e muito bem escrito, como é seu apanágio.
Um abraço
Oi Paulo,
Oi Manuela,
Que lindo!!
Esse envelhecer e aos poucos rejuvenescer, me conduziu à leitura com intriga e encanto.
Beijos meu
Pelo fim se chega ao princípio, ao princípio de tudo!
inspirada e inspiradora, a Manuela...bravo!
as imagens, quanto a mim, não poderiam ser outras... obrigado Paulo!
abraço-Vos
Paulo
Vim, li e saí.
O tempo era tão pouco para poder ler, como gosto - com olhos de ler e a alma escancarada.
De novo fico rendida a este texto da manuela, para quem vai um beijo meu.
Para ti, um beijo também.
E, já agora, um para o Fernando Pedrosa, o olhar atento, objetivo.
3 beijos então.
Querido amigo
Quanta beleza nos propícia.
Palavras neste momento são indispensáveis.
Obrigado pelo coração benevolente.
Desejo um lindo fim de semana.
Com muito carinho BJS.
Auf!
Auf se estas paredes ladrassem...
Auf!
Auf!
Béu, béu!
Para já fico-me pelas pedras da calçada portuguesa...
Béu, béu!
Esta descida ( ou subida) da vida num circuito contrário...talvez muitos de nós a gostaríamos de fazer...Como seria? A Manuela deu-nos essa prespectiva de um modo empolgante e emocionante, como só ela sabe escrever.
As fotos de Fernando Pedrosa são magníficas e acompanham este trajecto de vida.
A ti, Paulo, anfitrião da tua página, obrigada por acolheres sempre o Belo e o que transcede.
Beijo
Graça
Este fim de semana, mudo-me para aqui, a minha casa está uma confusão de béus!
mas não se incomodem, trago a almofada
miéu!
Meu querido Poeta
Quando nascemos começamos a morrer e quando estamos a morrer talvez estejamos a nascer novamente.
Complicadas as palavras como a vida.
E não tenho competência suficiente para comentar essa sinfonia de palavras dedilhada a duas mãos, por isso vou apenas sentindo.
Um beijinho para os dois
Sonhadora
°º♪♫
°º✿♪♫
º° ✿♫ ♪♫°
Olá, amigo!
Seu texto é precioso...
Bom fim de semana!
Beijinhos.
Brasil°º♪♫
°º✿♪♫
º° ✿♫ ♪♫°
soberbio texto e me chamou a atençao " Como detesto que me chamem meu querido ... Que mania a desta gente, infantilizar os velhos, como se não bastassem os espelhos que nos devolvem um ser que não reconhecemos..."
è asim como eu sinto...
um gde abraçO!
Meu querido amigo, descobrir as coisas é sempre muito bom.Mesmo quando já as conhecemos...
Um apertado e grande abraço, Paulo.
ººº
Sempre belas fotos ... gostei muito dos candeeiros, uma temática que me é muito querida.
Mega-abraço amigoo!
Belo texto, ainda mais num domingo chuvoso e quente aqui no Brasil! Angústia, amizade, estranhos caminhos...Deus existe?
Uma semana ainda mais bela Paulo!!!
Um beijo
Bia
iof mob ratse iuqa!
de trás para a frente :)
um abraço a todos
um beijo feliz, Paulo!
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. a.todos,,, .
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. visitantes . comentadores e amigos do #intemporal# .
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. bem.hajam .
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. e,,, .
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. um beijo feliz . à manuela baPtista . e.terna.mente grato .
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