. i | n | t | e | r | v | a | l | o .
Talvez seja nostalgia, a do início das coisas. Um sentimento de que tudo se repete e nós com ele, inseguros, desconfiados dos rituais a acordar saudades de um distanciamento maior. Era assim que ele se sentia a cada começo de ano e os dias de inverno que são curtos pareciam enormes e nas noites longas apenas cabia um sono pesado e fundo. O nevoeiro formava-se a cada madrugada, estremunhada a ausência de claridade e a humidade era presença ao sol pôr. Os pássaros calavam-se desentendida a nota que os faria cantar.
Era sábado e foi por ali junto da água e do cais em busca sabia lá de quê, da multiplicação dos dias que tinha só para si, talvez. Sentou-se num banco, esticou um braço para cada lado, o nariz levantado em direção ao sol e fechou os olhos. Cada vez mais longe o ruído dos carros, os gritos das crianças a jogar à bola sobre o relvado, o chamamento de alguém. E ele desligado a formar um vazio dentro da cabeça.
Ausentou-se um segundo e uma sombra leve fez com que abrisse os olhos. E viu-o. Casco de madeira escura, três velas, igual número de mastros toscos, o cordame e os juncos a prender e a suportar a estrutura num equilíbrio quase impossível, uma flutuação perturbante.
Vem daí, disse o barco, numa voz de estrela do mar. Não acredito, pensou ele, o barco fala. Precisarás de muito para viajar? perguntou o barco. De futuro, respondeu ele, como se procurasse uma cidade de futuro, acrescentou. É o que basta, disse o barco. De um salto, um leve adeus à terra e às casas e ele foi, o vento de feição, uma alegria solta no peito.
Como era possível partir assim confiadamente naquele ser, nem águia nem peixe, a ranger cantos de canavial, sopro de panos de luas e marés.
Rumaram a sul, as velas abertas como as asas de uma borboleta frágil e forte e navegar é como voar dobrado o cabo das tormentas e se el rei disse ser o da boa esperança, assim será. Confundiram-se as águas do Atlântico e do Índico e junto à costa continuaram, o homem e o barco e já sabiam muito um sobre o outro, porque tudo nunca saberiam.
Por esta altura atingiram o Mar Arábico e daí pelo estreito de Ormuz, passaram ao golfo Pérsico. Numa enseada onde grandes navios aportavam, o pequeno junco singrou cheio de pressa e parou para descansar.
Ele saiu e foi à descoberta dos edifícios mais altos do planeta, dos hotéis que parecem barcos a tocar os céus e o mar. Das ilhas artificiais em forma de palmeira, construídas de areia e pedra e das outras, que desenham na água um mapa do mundo com se este fosse um traço na palma da mão. Atravessou então quatro vezes a cidade de uma ponta à outra e em cada dia bebia três litros de água mineral porque afinal o calor apertava. Das tamareiras cresciam doces frutos, a raposa do deserto sobrevivia à canícula e ao pó e ele acreditou que entre a riqueza e a opulência, entre o passado e o futuro, os habitantes da cidade encontrariam aquela hora do dia em que se deseja o silêncio e a quietude de um templo.
Mas o Índico chamava-o e desta vez foi ele a desafiar o barco. Zarparam rumo aos bancos de coral e eram cálidas as águas e acenou à ilha de Ceilão com saudades das montanhas, das florestas da monção e das plantações de chá preto. Umas milhas mais e outro mar, turquesa, esmeralda, manso, morna a areia branca das praias, porque quem nunca nadou sob um tecto de estalactites e descansou a cabeça num pé descalço de Buda, não reconhece o assombro de ser um pequeno ponto de um desígnio feliz.
Admiraram-se os peixes, as baleias, as aves marinhas e todas as gentes, de ver um homem e um barco a viajar assim. Mas se quatro são os pontos cardeais, até mesmo aqueles que partilharam tanto se separam e um permanece e o outro vai.
O barco alongou os mastros, desenrolou os panos das velas, branco, cor de areia e de salmão. Fez estalar o casco e disse-lhe, ficas aqui mais um pouco neste reino de Sião, eu navego à bolina e voltaremos a viajar. Um dia.
O barco afastou-se e ele ficou, apaziguado, até a linha do horizonte lhe apagar um risco no olhar.
No seu ombro esquerdo pousava uma borboleta frágil cor de areia e asas de salmão.
. gratíssimo à manuela baPtista pela materialização desta página .
. a todos . até breve .

40 . Intemporalidades .:
e agora... que se materialize esta longa viagem, esta grande aventura, e que ao cais de partida, regresse o barco-falante e seu navegador com muitas histórias para nos contarem...
ansioso, no cais te espero!
até breve, querido amigo!
um grande abraço
outro para a Manuela, pela sensibilidade, pela arte
nandinho
°º✿
º° ✿ ✿⊱╮
O texto é muito poético, cheio de sensibilidade.
Bom domingo, amigo!
Beijinhos.
Brasil.
º° ✿ ✿⊱╮
"No seu ombro esquerdo pousava uma borboleta frágil cor de areia e asas de salmão",
gente com sorte,
não é como esta desgraçada, que tem mãos das obras, músculos cor de canela, biceps de ébano e pau santo, a segurarem-lhe os ombros e a taparem-lhe a fresta da voz, enquanto mais dois, com a crise da construção civil, lhe abusam horas e horas, mais a meia hora do Código do trabalho,da fresta dos óóóóóóóóóóós...
Gostei de ler, um abraço
Fico cheio de apetite quando te leio em prosa, como sabes. Mas começando pelas palavras que tiveste a amabilidade de deixar la no meu canto, o fogo que arde sem se ver pode originar distúrbios na própria entrega, porque se consome em altas temperaturas que não são amenizadas, e do ritmo estonteante também necessitamos a paz.
Da "santificação virtual", cheira-me a martírio, e mal de alguém se se quer redimir (?)assim. Quando muito a sublimação, que é o que fazem os poetas reciclando na poesia a água que se turva. A melhor purificação (isto só para usar o teu termo) é deixar o fogo ver-se, de forma livre e simples, e não acorrentado,consciente porém, de que não lhe cabe tomar o afecto que não for gratuitamente entregue. Embora aqui Pessoa falasse mais noutro sentido.
Nem tudo o que brilha é ouro, de facto, mas falo aqui mais da dor e do amor universal na responsabilidade individual e colectiva, do que desencantos ou enganos. Aliás, é mesmo por isso que a nossa responsabilidade é ainda maior, para que não aconteçam casos assim.
Agradeci lá o teu testemunho mas como nao costumo responder aos comentarios, poderias nao ver e por isso partilho aqui a tua resposta :)
E este teu texto está belo. Encontro um registo diferente quando escreves assim, ou talvez porque aprecie mais prosa. E (entre)vejo-te muito, numa parábola que só tu descodificas, mas que das palavras saem as palavras de nuvens fiadas em dor.
Mas importa muitíssimo o apaziguamento final, mesmo quando sobre ele impendem mistérios de dor ou solidão escondidas. Ou uma tristeza subtil que "a borboleta frágil cor de areia e asas de salmão" pousou no ombro esquerdo.
Um abraço, Paulo! Porque há barcos e homens que nos abalam a fé na segurança das marés...
E por ser preciso viver que navegar também é, e seja mar, terra, sol para amar, que se vá para o mar, uma cortina de felicidade e completude se abre no horizonte, o teu horizonte,Paulo. Boa viagem, descansa até não mais cansar da beleza de onde o barco te levar. Abçs.
quantas vezes velejamos em barcos sem velas, procurando a acalmia das marés,descemos em portos que pensavamos seguros mas as encruzilhadas continuam, quantas vezes só resta sentarmos-nos nos bancos junto ao mar fechar os olhos e acalmar o íntimo
~bjs
Que seja mesmo só um até breve, amigo Paulo, pois não sei se teremos tempo de nos despedirmos.
Nos meus horizontes também há viagens... não tão belas nem em veleiros com asas de borboleta cor de areia e de salmão, mas viagens, sim!
Beijo
Ná
ººº
Nostalgia e saudade sempre a interligarem-se.
Mega abraço !
Um texto soberbo...de mar e barcos e busca de tranquilidade...
Paulo...preciso falar-te.
A sério!
um único passo
e um sopro de vento
assim será!
um abraço, Paulo
Querido amigo
Tenha uma linda viagem, na volta venha com seu coração cheio de histórias felizes para nos contar.
Que sua alma possa sentir todos os momentos dessa viagem.
Belos desenhos,texto maravilhoso, estou numa viagem depois de ler.
Obrigado pelo carinho de sempre.
Com muita alegria BJS.
Em um momento especifico... já fui o homem e fui o barco...mas o barco tinha asas, o horizonte não era uma linha curva e sim uma bolha onde eu flutuava... um ponto solto lá em baixo tronara minha Iris que sumira pelo espaço de um brilho lagrimoso.
Paulo, quero agradecer suas palavras lá deixadas e dizer que ficarei muito feliz em lhe servir. Assim digo, fique a vontade de busca a imagem que desejares.
Mais uma x grata por seu carinho.
Bjinhos e uma semana em SolMaior a vc, amigo.
Manuela sempre me surpreende pela escrita, a fluência.
E você uma ótima viagem, com muitos momentos bonitos, muitas histórias e fotografias, muitas descobertas...e tudo mais que você gosta.
abraço.
É sempre nostálgica a música da despedida, mas como sempre digo: reinventar paisagens é reinventar a vida...Vá, mas volte, poeta querido...Beijos
Meu amigo, também ousei viajar com aquele homem e o barco.
Fui em sua companhia, foram momentos mágicos, que propiciados pela gratuidade da imaginação, consegui me desligar das minhas preocupações...
Voltei agora a pouco.
O barco continua em suas andanças por aí, creio eu.
Creio que outros se aventurarão com ele pelos oceanos.
Um abraço.
Fico à espreita, pendurado nas asas dessa borboleta, o próximo relato de viagem ao "interior do silêncio", nem sempre fácil por entre o bulício até das areias ao vento! Boas viagens, Paulo e, mesmo, até breve!
Abraço do Quicas
Uma boa viagem Paulo, uma viagem para a serenidade e que voltes bem, confiante na vida e nos que te querem bem, preenchido de tudo o que de belo os dias te derem.
Tudo de bom.
Beijos
Querido Paulo
É sempre a nostalgia que nos obriga a partir... tentar pegarmos o último elo para continuarmos a história.
Espero o teu regresso para recordar o meu Indico, o oceano do mundo que mais histórias guarda nas suas águas adormecidas.
Tenho a certeza que voltarás mais enriquecido!
Um beijo à Manuela que nos convida a trazer todas as nossas certezas e incertezas à tona de água.
Um beijo para ti e boa viagem!
Graça
Querida Manuela, nada me daría más alegría que poder sentarme junto a tí, en la arena de la playa, un atardecer de verano, para oirte relatar una de tus maravillosas historias, con los ojos cerrados, la mente tan sólo abierta a tus palabras.
Paulo, intuyo que te vas de viaje, de nuevo a Asia, de buena gana sería polizón en ese barco, para compartir contigo jornadas de belleza, de amistad, de aprendizaje de la vida....disfruta, vive al máximo esos días, llena tu alma de historias sólo por tí vividas, cuéntanos a tu vuelta algo de ellas, para hacernos vibrar de felicidad sintiéndolas nuestras.
Un abrazo enorme,enorme,enormemente cálido para narradora y viajero.
Enrique.
Paulo,
Volto, porque na vontade de te desejar boa viagem não comentei o conto belíssimo da Manuela, o que foi um enorme lapso meu. Este é um dos mais lindos contos que lhe li, pleno do sonho de conhecer novos horizontes, que traduz com palavras de encantar a aventura de fazer caminhos desconhecidos e nos enriquecermos com eles.
Beijos
Branca
Paulo,
Volto a este espaço porque a vontade de te desejar boa viagem me fez cometer um erro enorme, o de não ter comentado o conto da Manuela, quanto a mim um dos mais lindos que escreveu.
Este é sem dúvida um conto que nos faz sonhar com outros horizontes, com a magia de outras culturas, que nos transporta para o interior de uma alma sempre com saudades de novos caminhos, uma alma ansiosa por chegar mais além e percorrer novas linhas do conhecimento.
Não sei se estou a repetir este comentário, pois não tenho a certeza de ter publicado o anterior. De qualquer forma, se assim fôr a Manuela merece aqui um bi-comentário, :)
Beijos para ambos.
Branca
sempre a um passo de_s_encontro. Mas insisto na viagem que me traz a este porto de abrigo, refugio de almas sedentas de paz.
a
g
u
a
r
d
o-TE.
A terra é redOnda.
E para não marear, diz ao barco para voar!
uma turra
ki.ti
Que em cada decisão de sua vida Deus esteja do teu lado sempre.
Dando lhe força e alento para vencer e superar qualquer tipo de sofrimento.
Que Deus lhe dê paz saúde e alegria mas que acima de tudo
lhe dê sabedoria e guie seus passos.
SEu carinho e sua amizade me faz muito bem ao meu coração.
Muitas bençãos e vitórias para você
♥ Não se esqueça que ♥ ... ♥ Estou seguindo -te e te amando ♥
Um carinhoso beijo e muitas saudades ...
Evanir..
A vida sáo escolhas, abraço Lisette.
A vida é feita de escolhas, abraço Lisette.
Meu querido Poeta
Uma viagem por dentro do tempo pelo interior do SER, como sempre sublime a escrita da Manuela.
Aqui fico esperando a volta.
Um beijinho com carinho
Sonhadora
a prosa da Manuela como sempre muito boa...
as imagens em harmonia...
e uma boa viagem com ideias e estadas boas....
um beijo aos dois
O blog tem um visual
de alto lá com o charuto!
Saudações poéticas!
Paulo,
Texto lindo, uma viagem que dás de graça a nós leitores.
Parabéns.
Ainda em terra e com saudades.
Beijo
Ná
Excelente post....
Um abraço
Deve andar longe, não é, meu anjo?, nesta vida que é um vale de lágrimas e de outras coisas.
Saudades desta sua entrevada
ººº
Passei p'ra te desejar um optimo DOMINGO !
Boa semana!
Beijinhos.
Brasil
(⁀‵⁀,)
¸`⋎´
¸.•°`♥
37 passos e outras tantas velas
seja o sol nascente de muitos dias felizes
um abraço, Paulo!
Muito belo este conto. Parece-me que é o amigo o timoneiro desse barco que anda por aí quem sabe em busca de si próprio ou de outras culturas, outras gentes, que lhe aplaquem a ânsia de novas coisas e novas sensações. Se assim for que seja uma boa viagem e que lhe dê tudo o que dela espera.
Um abraço
a todos
e a Si, Paulo
grata por esta viagem!
um abraço
manuela
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. a.todos,,, .
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. visitantes . comentadores e amigos do #intemporal# .
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. bem.hajam .
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. manu.ela.de.elo . eu . nós . é que Lhe agradecemos .
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. bem.haja .
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